Antes de começar a falar dessa gestação que estamos vivendo tão feliz e serenamente (como contei aqui), quero “começar lá do início”. Ano passado, mais ou menos por essa época, eu sofri um aborto espontâneo. Não é uma coisa que as pessoas falam muito e parece meio “tabu”, mas depois que a gente passa e conversa sobre isso, todo mundo conhece alguém próximo que já tenha passado por um.

É triste? Sim. Dói? Muito. Mas acredito que, quanto mais as pessoas falarem sobre isso, mais podem se ajudar a passar por essa perda que, infelizmente, é comum. Aparentemente de 15 a 20% das gestações não procedem por causas naturais, cromossômicas ou genéticas que a própria natureza/corpo “seleciona”, sendo a grande maioria nas 12 primeiras semanas.
Quando a gente engravida de forma planejada (nosso caso), a gente até “passa o olho” nessas informações, mas prefere ignorar. Afinal, “isso nunca vai acontecer com a gente”. Prefere comemorar a gravidez e já imaginar o resto da vida com uma criança – outro cenário não parece mais possível.

Ainda não tinha me disposto a escrever sobre isso. Como já se passou mais de ano e essa gravidez está correndo bem, resolvi compartilhar para (quem sabe?) ajudar quem está passando por isso e mostrar que no fim (geralmente) tudo dá certo.

Pega a pipoca, que lá vem textão.

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Como descobrimos a nossa 1ª gravidez

Não teve muito mistério. Já estava há alguns 3-4 meses sem pílula, a menstruação atrasou, fiz um teste de farmácia e deu positivo!
Antes disso eu já havia passado por situações em que eu achava que estava grávida e fiz testes de farmácia em que deram negativo. Por isso foi tão surreal e difícil de acreditar que era verdade.

Eu trabalho o dia todo e naquele dia eu tinha aula no pós-graduação à noite. Passei a aula toda encucada com o atraso da danada, então quando saí da aula passei numa farmácia para comprar um teste. Cheguei em casa, chamei o Léo e fizemos o teste “juntos”.

Simplesmente não dormi naquela noite. Enquanto o Léo roncava, eu me passeava dentro de casa numa mistura de felicidade, ansiedade e preocupação de uma mãe de primeira viagem.
No dia seguinte, fui fazer exame de sangue no meu intervalo de almoço e no meio da tarde já saiu o resultado pela internet. Super positivo. Super grávida. Beta HCG lá em cima.

Como contamos para a nossa família

Seguramos mais uns dias a informação só para nós, mas logo na semana seguinte já era Páscoa e eu queria muito contar para o meu irmão que estava aqui, o Gus (que mora em Portugal), ao vivo. Então naquele feriadão comprei uns bombons e amarrei um cartãozinho em cada um dizendo “Feliz Páscoa”, vovó/vovô/tio!

Para a família do lado do Léo, fomos visitar meus cunhados aproveitando que os meus sogros estavam por lá e contamos para todos juntos. Do meu lado da família é o primeiro neto, e do Léo, apesar de não ser o 1º, faz tempo que não temos um bebê pois minha sobrinha mais nova já tem 10 anos. Não preciso dizer que todos ficaram muito felizes e já começamos a criar expectativas juntos, pais, avós, tios e primos.

A primeira ecografia

Eu e o Léo fomos fazer a primeira ecografia solicitada pela obstetra com apenas 6 semanas. Estava tudo perfeitamente normal. Já saímos de lá encantados, mesmo com os poucos centímetros que o embrião tinha, mas com um coração que batia forte e nos deixou emocionados.

A partir daí não seguramos mais a informação e aos poucos fomos contando para os demais familiares, amigos e colegas de trabalho. Já começavam os palpites e perguntas sobre o sexo e o nome do bebê e a gravidez ia ficando mais real.

Não me recordo de ter tido muitos sintomas, mas lembro um pouco da sensação de estar enjoada e de apenas ter passado mal uma vez, quando já estava, mas não sabia que estava, grávida. Teve uma noite que tive uma pontada muito forte no ventre enquanto eu dormia, e acordei de sobressalto assustando o Léo também. Quando a dor passou, tão rápido quanto veio, me deu uma fraqueza e um suador, me deixando muito pálida, segundo o Léo. Mas passou e não tive mais sintomas.

Fomos na primeira consulta “oficial” com a obstetra e descobrimos que isso pode ter sido uma contração uterina. No mais estava tudo bem, fizemos os demais exames de sangue e urina e a gravidez seguia normalmente para fazermos nova consulta e ecografia em um mês.

A segunda ecografia e a notícia mais triste

Então, passadas 4 semanas, fomos fazer a segunda ecografia com 10 semanas. Logo que a médica começou a procurar o embrião, já senti uma estranheza. Então ela me perguntou se eu havia tido algum sangramento ou algum desconforto e sem muita enrolação já nos disse que as notícias não eram boas.

Ela não encontrou os batimentos cardíacos e disse que, para um embrião de 10 semanas, ele estava muito pequeno, que provavelmente havia parado de se desenvolver na 8ª semana da gestação. Depois do baque, ela foi muito gentil e disse que era muito comum, que infelizmente isso acontecia todo dia por lá. Que já tinha acontecido com ela e que ela tinha duas filhas lindas hoje. Que isso não iria me impedir de engravidar no futuro. Que ela sabia o quanto era doloroso, mas que iria passar.

A médica se retirou da sala e eu caí no choro. Simplesmente não havia me ocorrido que isso poderia acontecer. O que eu fiz de errado? Será que tenho algum problema? São tantas perguntas sem resposta, mas a que mais me acalentou é que “não era pra ser”.

Fomos almoçar nos meus pais e foi horrível chegar lá com essa notícia. Minha mãe me lembrou que havia perdido uma gestação antes de mim, o que me fez pensar que se não fosse isso, talvez eu não estivesse aqui, reforçando a minha “teoria do destino”.

Nem voltamos ao trabalho à tarde. Era véspera do feriado de 21 de abril, uma quarta-feira, que ainda passamos em casa de luto. Na sexta-feira cedinho fomos na obstetra conversar e o fato é que não se tem muita explicação pra isso, simplesmente acontece e é muito comum. Até se pode investigar a partir de uma 3ª perda, pois até uma 2ª ainda estaria dentro da “probabilidade estatística”.

A obstetra ainda nos falou para esperarmos o processo físico ocorrer naturalmente, pois é a melhor forma do corpo se recuperar e se preparar novamente para uma futura gravidez. Pediu para eu deixar avisado no trabalho que assim que o processo começasse eu precisaria de alguns dias em casa.

Assim, voltamos ao trabalho naquele dia e seguimos a vida normalmente, mas com um vazio no coração que perdurou por algum tempo. Volta e meia nos lembrávamos da perda e ainda chorávamos um pouco.

No próximo post farei a parte 2 desse relato, contando como foi o processo físico do aborto espontâneo (ou retido, em termos mais técnicos).

Um beijo,

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